Um acordo de 400 milhões de dólares sobre a forma como a TikTok tratou dados de menores

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou, a 21 de agosto de 2026, que a TikTok e a empresa-mãe ByteDance vão pagar 400 milhões de dólares para resolver um litígio sobre a forma como a plataforma tratou a privacidade de menores, num processo ligado ao Children's Online Privacy Protection Act.

O próprio comunicado do Departamento de Justiça, intitulado "Justice Department Secures $400M Settlement with TikTok and ByteDance to Resolve Children's Privacy Litigation", descreve o caso como um dos maiores acordos de aplicação da lei em privacidade de menores já alcançados nos Estados Unidos, e o número foi confirmado no mesmo dia, de forma independente, pela Bloomberg, pela Variety, pela TechCrunch e pela Fox Business, todas a partir do mesmo comunicado do Departamento de Justiça.

Como se repartem os 400 milhões de dólares

O acordo divide-se em dois pagamentos distintos em vez de uma soma única: 300 milhões de dólares são devidos de imediato, enquanto os restantes 100 milhões de dólares estão ligados à anulação de uma decisão de consentimento que remonta à Musical.ly, a aplicação que a TikTok absorveu e renomeou anos antes de este processo ser instaurado.

Pagamento imediato300 milhões de dólares
Ligado à anulação da decisão de consentimento da era Musical.ly100 milhões de dólares
Total do acordo400 milhões de dólares
Mecanismo comparável: multa máxima do DSA europeuaté 6 por cento do volume de negócios global anual da plataforma

Um país, uma via: como os EUA aplicaram a lei

Os Estados Unidos chegaram a este resultado através de um acordo em processo judicial do Departamento de Justiça, um mecanismo caso a caso que produz um valor negociado e um conjunto de condições de conformidade vinculativas, em vez de uma tabela fixa de multas.

A União Europeia e o Reino Unido estão a construir regimes paralelos mas estruturalmente diferentes para o mesmo problema de fundo: o DSA dá à Comissão Europeia e aos coordenadores nacionais de serviços digitais o poder de multar uma plataforma até 6 por cento do seu volume de negócios global anual por riscos sistémicos para menores, enquanto o Online Safety Act britânico dá ao Ofcom poderes de execução sobre plataformas com utilizadores com menos de 13 anos, com a Information Commissioner's Office a manter uma via paralela de proteção de dados. Em Portugal, seria a Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) a analisar o lado da proteção de dados de um processo equivalente, junto do coordenador nacional de serviços digitais.

Porque é que um acordo judicial também passa a ser um número de referência

Um acordo de 400 milhões de dólares não é uma tabela regulatória, mas é agora um número real e citável do que anos de subestimar o risco de privacidade de menores em torno de um produto herdado conhecido podem custar quando, finalmente, é levado a tribunal, e esse número viaja bem além do processo americano que o produziu.

Qualquer empresa europeia ou britânica que opere um produto com uma base de utilizadores de idades mistas, seja um jogo, uma plataforma de ed-tech, uma funcionalidade social ou simplesmente um fluxo de registo que não filtra de forma fiável utilizadores com menos de 13 anos, tem agora um número contra o qual pesar o custo de construir bem, desde o início, os controlos de verificação de idade e de minimização de dados.

Além do acordo: o que uma equipa europeia ou britânica deveria realmente estar a fazer

O passo prático não é esperar por um pedido de avaliação de risco do DSA ou por uma investigação do Ofcom antes de rever o fluxo de registo, mas tratar o número de 400 milhões de dólares como o valor de abertura numa conversa de orçamento sobre o custo de gerir mal, durante anos e não meses, os dados de utilizadores com menos de 13 anos.

Isso significa auditar se a barreira de idade de um produto é cosmética ou realmente funcional, se as pipelines de análise e de segmentação publicitária estão a reter, em silêncio, dados de utilizadores que se identificaram como tendo menos de 13 anos, e se uma funcionalidade herdada de uma aquisição, tal como a TikTok herdou a Musical.ly, continua a funcionar sob pressupostos antigos que ninguém reviu.

O número que os reguladores dos dois lados do Atlântico vão agora citar

A aplicação da lei nos Estados Unidos e na UE ou no Reino Unido são sistemas diferentes, mas ambos apontam agora para o mesmo padrão de falha subjacente, e o acordo de 400 milhões de dólares dá a cada regulador e a cada plataforma um ponto de referência partilhado sobre o quão dispendioso se torna tratar a privacidade de menores como algo secundário.