Um quadro branco, uma base de dados, e agora o mesmo dono
A 10 de setembro, a Bending Spoons acordou comprar o Miro por 1,355 mil milhões de dólares de valor de empresa, a sua segunda aquisição em cinco semanas após o Airtable. Uma equipa que planeia o seu roteiro no Miro e acompanha o trabalho no Airtable responderá, assim que o negócio for concluído, perante a mesma empresa-mãe para ambas as ferramentas, sem ter escolhido essa combinação nem sequer sido consultada.
O Miro traz cerca de 4 milhões de utilizadores pagantes e cerca de 600 milhões de dólares em receita recorrente anual, quase 90 por cento proveniente de clientes empresariais, segundo o próprio anúncio da Bending Spoons. Alguns accionistas do Miro estão a reinvestir 295 milhões de dólares dos seus proveitos em novas acções da Bending Spoons em vez de saírem por completo, um pormenor que as próprias empresas divulgaram e que mostra que os vendedores continuam a acreditar no negócio combinado. O acordo é uma transação inteiramente em dinheiro ao nível da empresa e deverá fechar no quarto trimestre de 2026, sujeito a aprovação regulatória.
A lista completa, porque é mais longa do que parece
O Miro não é uma compra isolada. Junta-se a uma carteira que já inclui o Airtable, o Evernote, o WeTransfer, o Vimeo, o Eventbrite, o Meetup, o Komoot, o StreamYard, a Brightcove, a AOL e o rastreador de animais Tractive, construída desde que a entrada em bolsa da empresa milanesa na Nasdaq, em julho de 2026, angariou 1,68 mil milhões de dólares precisamente para este tipo de compras.
| Produto | O que é | Preço pago | Ano |
|---|---|---|---|
| Evernote | Notas e tarefas | Não divulgado | 2022 |
| WeTransfer | Transferência de ficheiros | Não divulgado | 2024 |
| Vimeo | Alojamento de vídeo | 1,38 mil milhões de dólares | 2025 |
| Airtable | Base de dados no-code | 1,285 mil milhões de dólares (valor de empresa), concluído em 31 dias | 2026 |
| Miro | Quadro branco visual | 1,355 mil milhões de dólares (valor de empresa), conclusão prevista para o quarto trimestre | 2026 |
Nenhum destes produtos competia entre si antes desta consolidação. Uma equipa que diversificou de propósito os seus fornecedores de software, escolhendo o Airtable em vez de uma base de dados rival e o Miro em vez de um quadro branco rival por razões independentes, vê agora ambas as escolhas a cair na mesma contabilidade.
O método tem um nome, e o presidente executivo di-lo abertamente
A Bending Spoons não esconde o que vem a seguir: o presidente executivo Luca Ferrari descreveu a abordagem diretamente. "A nossa tese é integrar estas empresas muito profundamente na nossa plataforma e reconstruí-las quase do zero: a tecnologia, o produto, a monetização e grande parte da equipa", disse sobre a estratégia que a empresa chama de transformação profunda.
Na prática, isso significou reorganizar equipas, renovar a tecnologia subjacente, redesenhar interfaces e mudar a forma como o produto gera receita, aplicado sucessivamente ao Evernote, ao WeTransfer e ao Vimeo antes do Airtable e agora do Miro. Não é um risco escondido numa nota de rodapé, é a razão declarada pela qual as aquisições acontecem.
31 dias contra um trimestre inteiro
A Bending Spoons anunciou o negócio do Airtable a 4 de agosto e concluiu-o a 4 de setembro, um fecho regulatório em 31 dias. O acordo do Miro, assinado a 10 de setembro, só é esperado no quarto trimestre de 2026, o que significa que os cerca de 4 milhões de utilizadores do Miro podem esperar até mais três meses do que os do Airtable até o negócio ficar definitivo e os planos reais começarem a aparecer no produto.
Nenhuma das empresas explicou porque os prazos diferem, e com o que foi publicado até agora essa diferença não se consegue explicar; pode simplesmente refletir jurisdições regulatórias diferentes ou uma estrutura de negócio diferente, sem que isso diga nada sobre as perspetivas do acordo. O que é certo é que os clientes do Miro enfrentam um período de incerteza mais longo do que aquele que os clientes do Airtable acabaram de deixar para trás.
O que isto significa se usa alguma destas ferramentas
A exposição prática não está numa única aquisição, está na correlação. Uma empresa que gere projetos no Airtable, faz brainstorming no Miro, toma notas no Evernote e transfere ficheiros grandes pelo WeTransfer tinha, até este ano, quatro fornecedores separados que podiam falhar, mudar de preço ou mudar de rumo de forma independente. Sob um único dono que aplica o mesmo método de transformação profunda a cada um, uma alteração de preço, a remoção de uma funcionalidade ou uma migração de contas num produto passa a ser um indicador razoável do que espera os outros num prazo semelhante.
O passo concreto é comparar as datas de renovação do contrato com a janela de fecho do quarto trimestre de 2026, exportar quadros e bases críticas enquanto as condições se mantiverem inalteradas, e tratar uma pilha de ferramentas de vários fornecedores que passa a partilhar o mesmo dono como um único ponto de risco, e não como quatro independentes.
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