Porque os telemóveis mais baratos caíram primeiro

Um gigabyte de memória vendido como memória de alta largura de banda a um servidor de IA rende a um fabricante três a cinco vezes o que o mesmo silício rende dentro de um telemóvel. Por isso a Samsung, a SK Hynix e a Micron passaram 2026 a mover capacidade de bolachas para essa memória e a afastá-la do DRAM e do NAND comuns de que dependem os aparelhos baratos. A memória de alta largura de banda consome já perto de um quarto de todo o fornecimento de bolachas de DRAM.

O efeito aparece primeiro na base do mercado. O analista da Omdia Runar Bjorhovde relata que os telemóveis abaixo de 200 euros caíram para apenas 25 por cento das entregas europeias no primeiro trimestre de 2026, um mínimo histórico, enquanto o preço médio subia para um recorde de 580 euros. Os preços do DRAM e do NAND aumentaram mais de 80 por cento face ao trimestre anterior. As marcas que antes procuravam volume, nota Bjorhovde, procuram agora valor porque os componentes baratos simplesmente não existem.

A conta chega na segunda metade de 2026

Os preços de contrato da memória subiram por degraus todo o ano. A TrendForce registou o DRAM convencional a subir de 90 a 95 por cento no primeiro trimestre e de 58 a 63 por cento no segundo. A Jefferies espera mais 40 a 50 por cento no terceiro trimestre e 30 a 40 por cento no quarto. Como um telemóvel ou um portátil expedido no outono é feito com memória comprada a esses preços mais altos, o aumento chega à prateleira meses depois de assinado o contrato.

Os fabricantes de computadores já disseram aos clientes empresariais o que isso significa. A Lenovo, a Dell, a HP, a Acer e a ASUS avisam para subidas de 15 a 20 por cento e revisões a meio do contrato. A Omdia espera que as entregas de smartphones na Europa caiam 12 por cento em 2026, com a maior parte da quebra na segunda metade. Os analistas não preveem alívio real antes do final de 2027.

O que quem compra deve fazer

Para uma família ou uma pequena empresa, o conselho habitual de esperar por uma oferta melhor inverte-se este ano. A curva de preços de contrato aponta para cima até ao quarto trimestre, pelo que um portátil ou telemóvel comprado agora sai provavelmente mais barato do que o mesmo modelo em novembro. Quem renovar a sua frota de aparelhos na segunda metade de 2026 deve orçamentar pelo valor mais alto e não pelo do ano passado.

A mudança de fundo não é sazonal. O escalão abaixo de 200 euros não está apenas caro neste trimestre, está a ser retirado do catálogo enquanto os fabricantes de memória puderem vender cada bolacha a um centro de dados. Os compradores portugueses que recorrem a lojas como a Worten devem contar com menos modelos e fichas técnicas mais pobres em vez de um regresso rápido aos preços de 2024.