Duas Funcionalidades Que Transformam a Fala em Texto
A Apple revelou o Siri Recap e o Live Rewind para o Apple Watch Series 12 e Ultra 4 a 9 de setembro de 2026, dentro de um conjunto mais amplo Audio Intelligence, a par do Sound Recognition e da integração com a Shazam. O Live Rewind permite premir duas vezes a Digital Crown para ver uma versão em texto dos últimos 15 segundos de uma conversa; o Siri Recap escuta ao longo do dia para gerar resumos, títulos e pontos-chave, sem produzir uma transcrição literal nem identificar quem disse o que, segundo a Apple. Ambas as funcionalidades processam o áudio no Secure Exclave do chip S11 e, segundo a Apple, apagam o áudio imediatamente após a conversão em texto; o relógio emite um sinal sonoro, mesmo em modo silencioso, e mostra um sinal visual para avisar quem está por perto.
As funcionalidades chegam em beta mais tarde em 2026, exigem um iPhone 16 ou posterior compatível com a Apple Intelligence, e são lançadas apenas em inglês, segundo o próprio anúncio da Apple.
A Questão dos EUA: Uma Transcrição Conta Como Gravação
Tanto o Register como o TechCrunch centraram a sua cobertura na legislação norte-americana sobre escutas e gravações, que em 11 estados exige o consentimento de todas as partes antes de se poder gravar uma conversa. A defesa da Apple, segundo noticiou o Register, assenta na afirmação de que não existe nenhuma gravação para partilhar, reencaminhar ou apresentar, já que apenas é gerado um resumo em texto e o áudio subjacente é eliminado. Adam Schwartz, diretor de privacidade da Electronic Frontier Foundation, disse ao Register que a privacidade das conversas deve incluir a liberdade perante o uso, por outras pessoas, de tecnologia para documentar o que é dito sem um consentimento claro e expresso. Nenhum tribunal norte-americano se pronunciou ainda sobre se uma transcrição de texto gerada a partir de um microfone ao vivo se enquadra em leis redigidas em torno da interceção de áudio.
A Pergunta Que Nenhum dos Dois Meios dos EUA Fez
Nem o Register nem o TechCrunch mencionaram o RGPD, os crimes relacionados com escutas nos estados-membros da UE, nem o Investigatory Powers Act do Reino Unido, e essa lacuna importa porque o critério jurídico de fundo e diferente na Europa. A lei norte-americana sobre escutas pergunta se foi feita uma gravação. O RGPD nem sequer coloca essa pergunta: aplica-se a partir do momento em que dados pessoais são processados, e as palavras faladas por alguém por perto, convertidas num resumo de texto que identifica o conteúdo de uma conversa, constituem sempre um tratamento dos dados pessoais dessa pessoa nos termos do RGPD, quer seja ou não guardado um ficheiro de áudio. A defesa central da Apple nos EUA, de que não existe nenhuma gravação, não tem equivalente com a mesma força no direito da UE, onde o ato relevante é o próprio tratamento.
Isso deixa em aberto uma questão que nenhuma cobertura atual aborda: que fundamento jurídico cobre o tratamento da fala de um terceiro que nunca abriu o menu de definições do Apple Watch, e o que acontece quando essa pessoa pede depois para ver, corrigir ou apagar dados gerados a partir de uma conversa que não sabia estar a ser convertida em texto. O sinal sonoro e o sinal visual que, segundo a Apple, satisfazem a sua abordagem declarada de consideração por quem está por perto foram concebidos para um enquadramento norte-americano que nunca coloca estas perguntas.
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