Criticidade no Idaho e depois 470 milhões de dólares

A 4 de junho, um reator do tamanho de uma carrinha de entregas ficou crítico no Idaho National Laboratory. A Antares chama-lhe Mark-0: arrefecido por tubos de calor de sódio, alimentado com urânio pouco enriquecido de alto teor em compactos TRISO e operado como ensaio de potência zero. Foi o primeiro reator não moderado a água leve desenvolvido por privados a ficar crítico nos Estados Unidos em mais de quatro décadas, o primeiro projeto inédito a consegui-lo naquele laboratório em mais de cinquenta anos, e o 53.º reator construído no local desde 1951.

Sete semanas depois, a 27 de julho, a empresa anunciou uma série C de 470 milhões de dólares. A Paradigm e a Caffeinated Capital lideraram-na em conjunto, com a Point72 Ventures, a Shine Capital e a Industrious Ventures ao lado. A estrutura merece leitura atenta: 370 milhões de dólares de capital e 100 milhões de dívida. A aplicação declarada é o salto do reator demonstrado para sistemas de potência no terreno, com um Mark-1 a produzir eletricidade em 2027 e as primeiras entregas a instalações militares em 2028.

Todos os relatos abriram com o dinheiro. O dinheiro é a parte menos interessante. O que conta é por que porta passou este reator, porque é essa porta que decide se a data de 2028 significa alguma coisa para alguém que não seja a força aérea norte-americana.

A autorização não veio da autoridade nuclear

A Antares foi autorizada pelo departamento de Energia. É a primeira empresa do Reactor Pilot Program desse departamento a receber autorização da agência e a concluir um ensaio de criticidade com combustível, e o ensaio decorreu no terreno de um laboratório nacional. A Nuclear Regulatory Commission, que licencia os reatores de potência civis nos Estados Unidos, não concedeu essa autorização nem era o organismo a convencer.

É esta a história inteira, e falta em todos os títulos. O nuclear avançado nunca esbarrou na física nem no capital. Esbarra no percurso de licenciamento e localização, que se mede em anos, é contraditório por desenho e pertence a uma autoridade civil que responde perante quem vive ao lado. A Antares não encurtou esse percurso. Saiu dele, para terreno federal de investigação, ao abrigo de um programa piloto de um ministério, para clientes donos da sua própria vedação.

É uma via legítima e um feito real de engenharia. Simplesmente não é o mesmo feito que demonstrar que se pode construir um reator ao lado do negócio de alguém, que é o que um fornecedor vai insinuar assim que o marco chegar a uma apresentação.

É um decreto que fixa o calendário

A data de 2028 tem uma origem, e não é um roteiro de produto. Um decreto exige que um reator esteja em funcionamento numa instalação do departamento da defesa até 30 de setembro de 2028. A força aérea gere um programa para isso, Advanced Nuclear Power for Installations. A Antares constrói contra um prazo que já existe na lei.

Leia a dívida a essa luz. Cem milhões de dólares de empréstimo dentro de uma ronda de 470 milhões são aqui o sinal verdadeiramente novo, porque significam que um financiador aceita agora financiar um construtor de reatores avançados. Mas a dívida é concedida contra uma contraparte contratada, e esta contraparte é um Estado sujeito a um relógio legal. Não existe garantia de cliente mais forte em lado nenhum. Não é um modelo transferível para um projeto que venda eletricidade a quem a quiser comprar.

Jordan Bramble, presidente executivo e cofundador, descreveu a relação sem rodeios: os militares foram um parceiro em cada passo. Está a descrever uma vantagem, não uma coincidência.

Um megawatt é o número com que se planeia

Agora a parte que desinfla, e é o número que mais facilmente cai da apresentação. A Antares constrói microrreatores no intervalo de 100 quilowatts a 1 megawatt. É a classe de projeto, e não uma limitação da primeira unidade que a escala venha a resolver segundo um calendário que alguém tenha publicado.

Compare-o com as cargas que realmente preocupam um operador europeu. Uma unidade fabril de média dimensão puxa vários megawatts. Uma sala de colocação modesta puxa mais. Uma única fila de servidores modernos de inteligência artificial aproxima-se sozinha do topo do intervalo da Antares. Esta classe de máquina foi feita para uma base avançada, um radar isolado, uma estação de investigação, um sítio onde a alternativa é gasóleo transportado de helicóptero. É uma excelente resposta a esse problema e não é uma resposta ao seu.

O que significa que mesmo no caso mais favorável, com a tecnologia a funcionar exatamente como prometido e a chegar depressa à Europa, não elimina a sua dependência de uma ligação à rede. Nunca foi concebida para isso.

O que perguntar ao próximo fornecedor que cite 2028

Este marco vai aparecer à sua frente dentro de meses, num processo de compras ou num documento de estratégia energética, apresentado como prova de que o nuclear atrás do contador já chegou. Três perguntas resolvem a questão depressa. Que autoridade concedeu a autorização, e existe uma via equivalente neste país. Qual é a potência elétrica em megawatts, e como se compara com a nossa ponta de consumo. Quem é o comprador contratado no projeto de referência, e podemos ser esse tipo de cliente.

Na Europa as respostas são desfavoráveis e vale a pena conhecê-las cedo. Não existe na União nem no Reino Unido equivalente a um programa piloto ministerial que substitua o licenciamento nuclear civil, e o terreno militar não está isento dele. A França e o Reino Unido mantêm cada um uma autoridade separada de segurança nuclear na defesa, mas esses organismos vigiam a propulsão naval e os programas de armamento, não a alimentação elétrica de uma zona industrial. Em Portugal, onde não há energia nuclear, qualquer instalação passaria pelo regime civil, seja de quem for o terreno.

Por isso o trabalho útil deste trimestre é pouco vistoso e está inteiramente nas suas mãos. Obtenha por escrito a sua posição na fila de ligação, com a data indicativa de entrada em serviço e as condições que lhe estão associadas. Esse dado pode ser conhecido esta semana, move o seu consumo nesta década e, ao contrário do calendário de um reator, pertence a um procedimento que consegue mesmo influenciar.