A Oferta, Em Números

A Advent International e a Stripe desistiram, a 27 de agosto de 2026, da tentativa de comprar a PayPal, pondo fim a uma aproximação que tinha começado em abril e que, em julho, já tinha produzido uma oferta totalmente avaliada e financiada de 53 mil milhões de dólares. A oferta do consórcio, de 60,50 dólares por ação, representava um prémio de 28 por cento face à cotação da PayPal nessa altura, e as ações tinham subido cerca de 17 por cento quando a notícia da aproximação se tornou conhecida. A Block, a empresa de pagamentos móveis anteriormente conhecida como Square, participou nas conversações iniciais junto com a Stripe e a Advent, mas saiu antes de os dois parceiros restantes apresentarem uma oferta formal.

Os números abaixo comparam a dimensão da oferta com aquilo que teria sido preciso para a concretizar, porque um preço de 53 mil milhões de dólares só significa alguma coisa quando medido face ao financiamento efetivamente montado por trás dele. Convertida, a oferta equivale a cerca de 49 mil milhões de euros, um valor próximo de toda a capitalização bolsista da Adyen, o fornecedor de pagamentos neerlandês com quem os comerciantes europeus comparam frequentemente a PayPal e a Stripe.

IndicadorValor
Oferta por ação60,50 dólares, um prémio de 28%
Avaliação totalmais de 53 mil milhões de dólares (cerca de 49 mil milhões de euros)
Financiamento bancário montado50 mil milhões de dólares, liderados pelo JPMorgan e pelo Morgan Stanley
Estrutura do consórcioStripe e Advent International, cerca de 50-50
Primeira aproximaçãoabril de 2026 (com a Block, que saiu depois)
Oferta formaljulho de 2026
Negócio abandonado27 de agosto de 2026, segundo a Bloomberg
Avaliação máxima da PayPal (2021)cerca de 360 mil milhões de dólares

O Financiamento Nunca Foi O Problema

O conselho da PayPal rejeitou a oferta por considerá-la insuficiente e citou obstáculos regulatórios e financeiros, mas o negócio nunca chegou ao ponto de testar nenhum dos dois: a PayPal confirmou que nem sequer tinha respondido formalmente à proposta antes de o consórcio desistir. O dinheiro em si não estava em causa. O JPMorgan e o Morgan Stanley já tinham coordenado um pacote de dívida de 50 mil milhões de dólares para financiar a aquisição, e a Advent e a Stripe estavam preparadas para dividir a propriedade quase a meio, a estrutura de um negócio construído para se concretizar, não apenas para sinalizar interesse.

O que acabou por travar o negócio foi antes a leitura que o conselho fez da própria empresa. O presidente executivo da PayPal, Enrique Lores, assumiu o cargo em março de 2026, sucedendo a Alex Chriss, e desde então reorganizou a empresa em três unidades operacionais e comprometeu-se a cortes de custos de 1,5 mil milhões de dólares nos próximos dois a três anos. A aposta do conselho é que o plano de Lores, com apenas cinco meses quando o consórcio desistiu, venha a criar mais valor ao longo do tempo do que um pagamento certo de 53 mil milhões de dólares hoje.

O Que A Stripe Quase Ficou A Possuir

A presença da Stripe no consórcio tornava isto em algo mais do que uma simples aquisição de private equity. Se o negócio se tivesse concretizado, a infraestrutura de checkout da PayPal e o seu braço de processamento Braintree teriam passado para a mesma empresa que opera uma das duas pilhas de pagamento que a maioria dos comerciantes europeus e britânicos já usa em paralelo, apagando uma rivalidade que moldou os preços e as escolhas de integração dos comerciantes ao longo de uma década. As empresas que deliberadamente repartem os pagamentos entre a PayPal e a Stripe, para manter poder negocial nas comissões ou como alternativa caso um processador tenha uma falha, fazem-no precisamente porque as duas continuam a ter donos separados.

Essa concentração não aconteceu, pelo menos desta vez, mas o facto de se ter conseguido reunir um pacote de financiamento de 50 mil milhões de dólares precisamente para este resultado é, em si mesmo, revelador: as duas maiores plataformas de pagamento independentes ao serviço dos comerciantes da UE e do Reino Unido estiveram mais perto de uma propriedade comum do que a maioria desses comerciantes alguma vez soube.

A Lição Para Quem Vigia A Propriedade De Um Fornecedor

O hábito de ler "financiamento garantido" como "negócio praticamente fechado" não sobrevive a este caso. A Advent e a Stripe tinham o dinheiro, a estrutura e um conselho que, segundo a sua própria versão, nunca esteve formalmente envolvido, e o negócio morreu na mesma na fase de preço e convicção, antes de ser sequer necessária uma única análise regulatória por concorrência ou concentração no mercado de pagamentos. Para quem vigia se um fornecedor crítico pode mudar de dono, a limitação determinante em 2026 nem sempre é o Digital Markets Act ou uma autoridade da concorrência; às vezes é simplesmente saber se o próprio conselho da empresa-alvo acredita que o seu plano de recuperação vale mais do que o número em cima da mesa.

A PayPal mantém-se independente por agora, o que significa nenhuma perturbação a curto prazo no seu roteiro de API, nas condições para comerciantes ou nas relações de apoio para os milhões de empresas na UE e no Reino Unido que usam o PayPal Checkout ou a Braintree. O que há agora a vigiar é antes o plano de poupança de Lores: um conselho que acabou de recusar 53 mil milhões de dólares em dinheiro para provar os seus próprios números não deixou margem nenhuma para os falhar.