O que foi assinado a 4 de agosto

Cinco semanas depois de levar a Bending Spoons à Nasdaq, Luca Ferrari assinou em Milão um acordo definitivo para comprar a Airtable. Os termos, publicados a 4 de agosto, fixam o valor de empresa em 1,285 mil milhões de dólares e o valor implícito do capital próprio em cerca de 2,25 mil milhões, tudo a dinheiro. A Airtable declara receitas recorrentes anuais de aproximadamente 480 milhões de dólares em junho de 2026, com um crescimento superior a 20 por cento face ao ano anterior, distribuídas por mais de 500.000 organizações, incluindo 80 por cento das Fortune 100. A conclusão está prevista para este ano, sujeita às aprovações regulatórias necessárias e às condições habituais.

É a primeira aquisição do grupo desde a entrada em bolsa e chega a uma carteira que já inclui AOL, Brightcove, Eventbrite, Evernote, Harvest, komoot, Remini, StreamYard, Vimeo e WeTransfer. A AOL entrou em janeiro de 2026 e a Eventbrite em março. Howie Liu, que cofundou a Airtable em 2013, apresenta o negócio como os recursos necessários para construir uma plataforma nativa de inteligência artificial. É a leitura do vendedor e pode ser sincera. Não é o número a ler.

O múltiplo é a previsão

Divida o valor de empresa pelas receitas recorrentes e obtém 2,68. Um negócio de software que cresce acima de 20 por cento por ano, com quatro quintos das Fortune 100 na carteira, não muda de mãos a 2,7 vezes as receitas porque o comprador espera multiplicá-lo. Esse múltiplo é o que paga quem compra a base instalada e não a curva de crescimento, e cujo plano é subir o rendimento sobre os clientes que já estão dentro em vez de conquistar novos.

A Bending Spoons nunca escondeu que o modelo é este. O grupo passou de um prejuízo de 112 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2025 para um lucro de 27,5 milhões no mesmo trimestre de 2026, e fê-lo apertando a forma como as suas marcas cobram. Quem usa o Evernote conhece o padrão. Se a sua operação corre em Airtable, a leitura honesta de 2,7 vezes as receitas é que a sua conta passou a ser uma linha de rendimento no modelo de alguém, e esse rendimento tem de vir de algum lado. Vale para uma PME portuguesa com trinta licenças tanto como para um grupo grande.

Quase mil milhões do preço é dinheiro da própria Airtable

A diferença entre os dois números publicados merece uma pausa. Um valor de capital próprio de cerca de 2,25 mil milhões de dólares contra um valor de empresa de 1,285 mil milhões implica cerca de 965 milhões de dólares de tesouraria líquida no balanço da Airtable. Dito sem rodeios: cerca de dois quintos do preço de manchete é a tesouraria da Airtable devolvida aos acionistas da Airtable. O negócio em si é comprado pelos 1,285 mil milhões.

Essa tesouraria é também a razão pela qual a compra é suportável tão pouco tempo depois da entrada em bolsa. A Bending Spoons garantiu, segundo um documento datado de 28 de julho de 2026, uma linha de empréstimo de 500 milhões de euros com garantia da SACE, a agência italiana de crédito à exportação. Um comprador que financia em parte com o balanço do alvo e em parte com dívida garantida por crédito à exportação tem um calendário de retorno. Os calendários de retorno acabam nas tabelas de preços.

O seu poder negocial caduca com o regulador

A análise regulatória é a única razão pela qual nada muda este mês, e é uma prenda com prazo de validade. Até à conclusão, a Airtable continua a vender nos seus próprios termos e quer entregar números de renovação limpos. Peça agora, por escrito, um preço a dois ou três anos, com um limite explícito aos aumentos por utilizador e à passagem de funcionalidades entre planos. Um fornecedor que está a mudar de dono assina com invulgar boa vontade uma cláusula que o comprador vai herdar.

Faça em paralelo o trabalho pouco vistoso. Liste cada base de que depende um processo real e exporte-a para CSV ou para um despejo de base de dados que consiga abrir sem a Airtable. Verifique quais das suas automatizações chamam a API e registe quais quebrariam com limites mais apertados. Confirme também a cláusula de renovação automática, comum nos contratos assinados em Portugal, porque pode cair dentro da janela da conclusão. Nada disto prevê que a Airtable piore: é o que separa ficar por escolha de ficar por obrigação.