Uma resposta sobre preços já de saída
A 30 de julho Tim Cook conduziu a sua última apresentação de resultados como presidente executivo da Apple, fechando um trimestre de 109,42 mil milhões de dólares e informando os analistas de que John Ternus passaria a liderar estas sessões. A certa altura dessa hora de despedida respondeu à pergunta que a Apple deixara em aberto desde junho, ou seja, como tenciona ganhar dinheiro com o Siri AI. Cook disse que a empresa acredita que haverá pessoas a querer usá-lo muito, "and so we will have some kind of upgrade possibilities on iCloud+, where people can buy up the stack on iCloud+, and we'll see how the pickup for that is."
Lido em sentido estrito, isso compromete a Apple a muito pouco. Não há preço, não há escalão, não há limite de utilização, e Cook admitiu que os planos não estão gravados em pedra e que a empresa está numa fase inicial. Lido pela forma, porém, esclarece algo. O Siri AI vai ser contabilizado, e o contador ficará dentro de uma subscrição que a maioria compra hoje para guardar fotografias. Uma função que chega dentro do sistema operativo e uma função que se carrega numa conta são duas rubricas orçamentais distintas.
A função não está à venda nos mesmos sítios
A Apple já tinha dito aos clientes europeus em junho, na sua própria sala de imprensa, o que não iriam receber. Craig Federighi declarou que a Apple estava "deeply disappointed that our EU users won't have Siri AI on iPhone or iPad when we share our new software releases later this year." A lista publicada é precisa: sem aplicação dedicada para rever conversas, sem a experiência alargada de Visual Intelligence, sem ferramentas de escrita integradas, sem modo Siri na Câmara em iOS. Os programadores sediados na União também não podem testar nem usar as novas funções do Siri AI dentro das suas próprias aplicações iOS e iPadOS, o que leva o efeito para além do software da própria Apple.
O que a Apple não reteve pesa igualmente. O Siri AI chega mesmo à Europa, em macOS 27 e visionOS 27. Não se está aqui a fechar uma fronteira. Está a cortar-se uma linha de produto ao comprido: retida nas duas classes de aparelho que as organizações europeias implantam realmente em quantidade, e entregue nas duas em que quase nenhuma se estandardiza.
A designação segue a plataforma, não o contrato
Vale a pena perceber porque é que a linha cai exatamente ali, porque voltará a acontecer com outros fornecedores. O Regulamento dos Mercados Digitais não designa empresas em abstrato. Designa serviços essenciais de plataforma, e o iOS e o iPadOS têm essa designação enquanto o macOS e o visionOS não. O próprio argumento da Apple é que, sob aquilo a que chama uma interpretação extrema do DMA, teria de dar a qualquer assistente virtual acesso direto aos dados privados dos utilizadores, além da capacidade de controlar outras aplicações instaladas, no momento em que o Siri AI aparecesse na União. Resista ou não essa leitura, o mecanismo é o mesmo: a obrigação prende-se à plataforma, portanto o produto parte-se ao longo das linhas de plataforma.
Coloque agora isso ao lado de uma única subscrição. O iCloud+ é um produto ao nível da conta, vendido nas mesmas condições em toda a União Europeia. Se o plano de Cook chegar como o descreveu, um cliente no Porto poderá comprar capacidade adicional de Siri AI numa conta e usá-la no Mac que está na secretária mas não no telemóvel que traz no bolso. Isso desloca a pergunta a fazer a qualquer fornecedor de inteligência artificial. Não é se a coisa está disponível no seu país. É que plataformas cobre o direito de utilização, e se isso está escrito nalgum sítio que possa fazer valer.
Duas declarações oficiais e nenhuma data entre elas
A posição da Apple é que a "refusal to engage constructively on solutions that preserve privacy and security means we do not currently have a timeline for Siri AI's availability on iOS and iPadOS in the EU." A posição da Comissão, transmitida aos jornalistas, é que a decisão de não lançar o Siri AI na União "is Apple's and Apple's only because absolutely nothing in the DMA prohibits Apple from introducing new products in the EU." Ambas são declarações oficiais. Nenhuma traz uma data.
Para quem planeia um parque de equipamentos, essa ausência é o facto operacional. Uma função pela qual duas partes se culpam publicamente não está adiada em nenhum sentido que permita planear. Está por agendar, e a diferença conta num caso de negócio, porque um adiamento pode esperar-se enquanto uma função por agendar tem de ser substituída ou retirada do plano. Nada nas duas declarações aponta para um mecanismo capaz de produzir uma data de forma previsível.
O que verificar antes das versões de outono
Três verificações são baratas em agosto e caras em outubro. Conte o que implanta realmente: se o parque é de iPhone e iPad, qualquer capacidade de Siri AI inscrita num plano para 2026 ou 2027 está indisponível para si e sem data, diga o que disser a apresentação do fornecedor. Separe os seus mercados, porque a exclusão da Apple está redigida como exclusão da UE e o Reino Unido saiu da União Europeia, pelo que um escritório britânico e um português não estão na mesma posição na mesma manhã. Depois veja como o iCloud+ é de facto faturado na sua organização, porque se corre por utilizador através de uma conta central vai passar a ter uma rubrica cujo valor depende do aparelho que cada pessoa traz consigo.
A seguir leve isso para o papel. Peça a qualquer fornecedor de inteligência artificial, e não só à Apple, que fixe o direito de utilização por plataforma e por mercado no contrato em vez de num comunicado de lançamento, e que diga o que acontece a um escalão pago quando uma função é retida ou retirada numa região. Vale também a pena reparar em quem responde. O gestor que expôs esta política de preços deixa o cargo de presidente executivo a 1 de setembro, e quem terá de a concretizar é John Ternus.
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