Uma fila que ultrapassou a própria rede
A fila de interligação da ERCOT já ultrapassa 474 gigawatts de capacidade pedida, mais de cinco vezes o recorde de pico da própria rede. Cerca de nove em cada dez desses pedidos vêm de data centers. O Texas estava a caminho de ultrapassar a Virgínia como o maior mercado de data centers dos Estados Unidos; em vez disso, a 3 de agosto, o governador Greg Abbott enviou uma carta à ERCOT e à PUCT a ordenar a auditoria de todos os projetos de data centers ainda em processo de ligação antes de aprovar mais instalações.
O lote concreto abrangido pelo congelamento ronda os 300 projetos, correspondendo por si só a cerca de 200 gigawatts de procura proposta, mais do dobro do máximo histórico da ERCOT. Uma rede concebida para 30 milhões de pessoas via-se, no papel, obrigada a planear para um segundo Texas feito inteiramente de data centers.
O que um projeto tem agora de provar
A auditoria não é uma formalidade. Cada projeto tem de apresentar documentação sobre incentivos fiscais, uso de energia e estratégia de produção, consumo de água e arrefecimento, como pretende mitigar o impacto na comunidade envolvente, e quem realmente detém e controla a instalação. A carta de Abbott ordena à PUCT que recuse a ligação à rede a qualquer projeto que não consiga verificar estes dados.
A ERCOT já suspendeu os avisos de classificação Batch Zero previstos para 7 de agosto, colocando em pausa o estudo de planeamento de transmissão associado, e vai pedir à PUCT uma exceção por causa justificada na reunião pública de 20 de agosto. A própria estimativa da ERCOT é que a revisão completa possa demorar vários meses. Não há data de conclusão publicada.
O segundo aperto em três meses
Não é a primeira medida do Texas contra o crescimento sem travão dos data centers. A Senate Bill 6, em vigor desde 2025, já obriga qualquer carga superior a 75 megawatts a divulgar o seu consumo e a aceitar obrigações de corte durante situações de tensão na rede. Em junho de 2026, Abbott determinou em separado que os data centers passassem a suportar a totalidade dos custos de infraestrutura de que necessitam, em vez de os distribuir pelas faturas domésticas. A auditoria de agosto é a segunda ronda: depois de obrigar os data centers a pagar os próprios custos, o estado verifica agora se conseguem provar aquilo que dizem precisar.
Para um projeto já sob contrato, a tarefa imediata é jurídica, não política: rever os acordos de interligação e de compra de energia à procura de cláusulas sobre alteração legislativa, força maior e prorrogação de prazos, porque um calendário regulatório dado como garantido deixou de o ser.
Porque um operador de rede europeu deveria prestar atenção
A National Grid ESO no Reino Unido e a TenneT na Alemanha e nos Países Baixos têm as suas próprias filas de ligação igualmente sobrecarregadas, grande parte impulsionada pela mesma procura de data centers que agora trava o Texas. Nenhum dos dois operadores impôs ainda um congelamento geral de auditoria prévia à ligação sobre projetos já em curso, como a ERCOT acabou de fazer. O Texas está, na prática, a conduzir o teste de campo: se uma rede consegue suspender, a posteriori, um conjunto de procura já autorizado e contratado, e o que isso faz aos prazos de investimento quando um operador o faz de facto.
Se a PUCT confirmar a ordem de Abbott a 20 de agosto, o modelo auditoria-antes-da-ligação torna-se um precedente a que outras redes congestionadas podem recorrer, e não apenas um episódio texano. Um operador que planeia um campus de data centers na Europa presumindo que capacidade autorizada é capacidade garantida tem agora um contraexemplo concreto a considerar.
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