Uma tese em que os agentes davam festas

Joon Sung Park construiu uma pequena cidade. No seu doutoramento em Stanford povoou um lugar simulado chamado Smallville com agentes de inteligência artificial que levavam vidas, formavam rotinas e, sem que ninguém pedisse, davam festas. Foi um resultado belíssimo e era, como são os resultados de doutoramento, uma demonstração e não um produto. A 30 de julho a sua empresa Simile angariou mais de 200 milhões de dólares com uma avaliação de 2 mil milhões, liderada pela Greenoaks a par da Index, Hanabi, Bain Capital Ventures, A*, Factory, Definition e CVS Health Ventures. É cinco meses depois de sair do sigilo com uma série A de 100 milhões liderada pela Index.

O que a Simile vende é essa cidade, apontada aos seus clientes. Constrói gémeos agênticos, substitutos gerados de consumidores reais que uma empresa pode inquirir em vez de fazer o estudo com pessoas. A ambição declarada é simular os oito mil milhões de habitantes do planeta com rigor e honestidade. Ponha a ambição de lado; todo o fundador precisa de uma. A decisão que lhe cabe dentro de portas é mais estreita e chega antes dos oito mil milhões.

O que 300 milhões de dólares em doze meses estão realmente a avaliar

Uma empresa com cerca de um ano já captou perto de 300 milhões de dólares no total e carrega uma avaliação de 2 mil milhões. Em dezembro, a Aaru, outra empresa de investigação sintética, fechou uma série A com uma avaliação de mil milhões. Em oito meses a categoria atraiu pelo menos 3 mil milhões de dólares de valor em papel assente numa única premissa: que perguntar a um modelo sobre pessoas é um substituto utilizável de perguntar às pessoas.

A premissa não é absurda. A investigação por painéis degrada-se há anos nas taxas de resposta e nos inquiridos profissionais, e uma simulação bem calibrada bate um inquérito mal feito. Repare, no entanto, contra o que é avaliado o dinheiro. Os estudos de mercado existem precisamente porque as pessoas são incoerentes, e o valor de um inquirido real não é o seu rigor, é estar fora do seu modelo. Um gémeo gerado a partir dos seus dados não o pode surpreender com algo que os seus dados nunca continham. Os investidores não pagam 2 mil milhões por rigor. Pagam pela remoção de um custo, e o custo removido é o atrito do contacto com a realidade.

A verificação que deixa de conseguir fazer

Eis a armadilha, e é um ciclo mais do que um erro. Um painel sintético valida-se calibrando-o contra estudos que já fez com pessoas reais. Muito bem. Depois usa-o em vez de fazer estudos novos com pessoas reais, porque é nisso que consiste toda a proposta económica. Seis meses depois o seu mercado mexeu-se, os seus clientes reorganizaram-se e a calibração envelheceu. Nada no sistema lho pode dizer, porque o único instrumento capaz de detetar o desvio é justamente o estudo que substituiu.

É a mesma estrutura de um sistema de monitorização cujos alarmes dependem do serviço que vigia. Funciona lindamente até ao dia em que interessa. A falha é silenciosa por construção e não se apresentará como uma resposta errada, mas como uma resposta segura que antes estava certa.

A contramedida não tem qualquer brilho. Mantenha um estudo real em paralelo, pequeno e sobre a mesma pergunta, com cadência fixa. Duzentos inquiridos reais por trimestre não são um programa de investigação, são um instrumento de aferição, e custam uma fração da licença. Ancore-o, onde puder, em algo exterior aos dois sistemas: os institutos de estatística, em Portugal o INE, publicam a estrutura populacional que devia estar a modelar, e uma população de gémeos que se afasta na idade, na região ou na dimensão do agregado está a dizer-lhe algo antes de qualquer resposta.

Um cliente de referência sentado no capital

A CVS Health é apontada como cliente de referência da Simile, e a CVS Health Ventures participou nesta ronda. Nada há de impróprio nisso; os braços de capital de risco dos grandes grupos financiam com regularidade as ferramentas que os seus negócios operacionais adotam, e um cliente investidor recebe muitas vezes o melhor apoio de todos. Continua a ser um facto que altera o peso da referência. Um cliente com participação tem duas razões para estar satisfeito, e só uma delas é o produto.

A instrução é simples e vale muito para além deste fornecedor. Quando a referência principal de um fornecedor aparece no seu próprio capital, peça uma segunda referência que não apareça, do seu setor, da sua dimensão, disposta a falar do que não funcionou. Se essa segunda referência for difícil de produzir, aí está a resposta a uma pergunta que ainda não tinha feito.

Por onde entra o custo afundado e como o manter de fora

O momento perigoso não é a compra. É o sétimo mês, quando a licença está paga, o prazo caiu de seis semanas para dois dias e alguém propõe gastar dinheiro real num estudo real. Nessa sala, validar parece pagar duas vezes por uma resposta que já se tem. Esse argumento quase sempre ganha, e está exatamente ao contrário: a licença é a despesa afundada e o estudo é a única coisa que gera informação nova.

Retire a decisão dessa sala com antecedência. Financie a aferição a partir de uma rubrica orçamental própria que não pertença à equipa que usa a ferramenta, defina a cadência e o limiar de divergência no contrato e acorde já que resultado o faria parar. Uma ferramenta que não pode ser desmentida não é um instrumento de investigação, é uma opinião da casa com mensalidade, e a diferença só se vê na decisão que corre mal.