O cenário alternativo que uma diretora financeira ofereceu
Numa apresentação de resultados da Microsoft, Amy Hood fez uma coisa que as empresas quase nunca fazem: disse aos analistas quanto o Azure teria crescido se a companhia tivesse decidido de outra maneira lá dentro. A Microsoft resolvia primeiro, explicou, "for the increased usage in sales and the accelerating pace of M365 Copilot, as well as GitHub Copilot, our first-party apps", e só depois atribuía aos clientes do Azure o que sobrava. Se os aceleradores postos em serviço no primeiro semestre do exercício tivessem ido inteiramente para o Azure, acrescentou, a taxa de crescimento comunicada teria ultrapassado os 40 por cento em vez de ficar no valor pouco abaixo de quarenta que a empresa publicou.
Porque é que isto conta. O racionamento é normalmente invisível. Um fornecedor com pouco em armazém serve quem serve e cala-se quanto ao resto, e os clientes que esperaram nunca chegam a saber o comprimento da fila. Hood tornou-a mensurável, em público, perante os investidores. A distância entre o número publicado e o cenário alternativo não é uma estimativa de analista. É a medição que a própria empresa fez de uma procura para a qual tinha os clientes e não tinha a capacidade. Disse ainda aos analistas que a Microsoft contava manter-se limitada pela capacidade pelo menos até ao fecho do exercício.
Tudo isto assenta num programa de investimento de cerca de 190 mil milhões de dólares este ano, na sua maior parte capacidade de centros de dados para cargas de inteligência artificial. Gastar a essa escala e ainda assim racionar é a parte que devia ficar registada em qualquer comprador. A escassez não é um erro orçamental que um cheque maior no próximo ano venha corrigir.
Os objetivos comerciais subiram enquanto a oferta era racionada
Quadros da Microsoft disseram à Business Insider no final de julho que falta à empresa tanta capacidade de cálculo que o Copilot é servido antes dos clientes do Azure, e que os objetivos de venda de nuvem tinham sido elevados em 30 por cento no mesmo período. Estas duas afirmações dirigiram-se a públicos distintos. Uma foi para os investidores, a outra para a rede comercial.
Para um comprador a consequência prática é simples: quem lhe vende capacidade no Azure tem um número para cumprir e nenhuma influência sobre a restrição que decide se a vai receber. Trata-se de um desequilíbrio estrutural e não de má-fé, e vale a pena nomeá-lo pelo efeito que tem no valor das promessas. Uma garantia verbal de disponibilidade dada por uma equipa de conta vale menos este ano do que valia no ano passado. A garantia que vale alguma coisa é um prazo de entrega escrito, ligado a uma região concreta e a uma data.
A própria ordem é o sinal. As aplicações da casa são a utilização de maior margem de um recurso escasso e produzem, além disso, os dados de utilização que melhoram o produto. Uma carga de cliente não faz nem uma coisa nem outra pelo fornecedor. Enquanto o recurso continuar escasso, servir primeiro o Copilot é a escolha racional, e é exatamente por isso que essa ordem se mantém e nenhuma escalada a inverte.
A energia elétrica é o que disputa a sua renovação
Nadella foi direto quanto ao sítio onde está agora o limite. "The biggest issue we are now having is not a compute glut, but it's power", disse, apontando a dificuldade de concluir as obras com rapidez suficiente perto da produção. As notícias do setor descrevem aceleradores parados em armazém por falta de potência elétrica para os instalar. O estrangulamento passou da fábrica de chips para a subestação, e passou em silêncio.
Isto muda aquilo que a negociação consegue obter. Uma restrição comercial cede ao preço, ao volume ou ao prazo. Uma ligação à rede não cede. Em Portugal o efeito tem um aspeto próprio: não existe região Azure no país, pelo que as cargas nacionais assentam em Espanha ou nos Países Baixos, e é justamente por isso que o projeto de Sines foi montado como polo de capacidade com ligação própria. A questão para um comprador português deixou de ser apenas onde os dados podem residir legalmente e passou a ser se a região escolhida, que fica fora do país, consegue receber potência no prazo com que a empresa está a planear.
O que convém fechar antes da próxima renovação. Ponha por escrito o compromisso de entrega por região e por família de aceleradores, com data e com uma consequência em caso de incumprimento, porque os créditos de serviço por indisponibilidade não cobrem capacidade que nunca chega. Pergunte o que acontece à sua alocação se a região estiver limitada e faça com que a resposta seja escrita no contrato e não no correio eletrónico. Atribua um preço ao que dois trimestres de atraso custam ao seu próprio plano, porque essa é a exposição que carrega quer a tenha calculado quer não. Depois ponha este ano uma carga real a correr num segundo fornecedor ou em infraestrutura transferível, para que a resposta a uma recusa de capacidade seja uma migração e não uma conversa. A Microsoft publica o quarto trimestre fiscal a 29 de julho, e o número a escutar não é a taxa de crescimento do Azure. É saber se a formulação sobre limitação de capacidade é prolongada para o novo exercício.
Leia a seguir: A Microsoft treinou os seus comerciais para dizerem que a Claude é mais lenta | Microsoft antecipa o prazo quântico para 2029



