Uma carta aos investidores, antes da abertura
A IBM não costuma antecipar contas. A 14 de julho publicou números preliminares selecionados do segundo trimestre, acompanhados de uma carta do presidente executivo Arvind Krishna, que classificou o trimestre de dececionante. O mercado fez o resto: a ação perdeu cerca de um quarto numa única sessão, a maior queda diária da história recente do grupo.
Os números em si não são um colapso. As receitas foram de 17,2 mil milhões de dólares, mais 1 por cento, contra um consenso próximo de 17,9 mil milhões. O resultado operacional ficou em 2,93 dólares por ação, mais 5 por cento, quando os analistas apontavam para cerca de 3,01. Em termos contabilísticos, o resultado foi de 2,27 dólares por ação, menos 2 por cento. As contas completas e as previsões chegam a 22 de julho.
Porque importa: um grupo desta dimensão não perde um quarto do valor por causa de 700 milhões de dólares de receitas. Perde-o porque os investidores desconfiam de que a explicação é pior do que o número. A explicação que a IBM realmente deu é a parte que merece leitura, e não fala da IBM.
O mercado ouviu procura. A carta descreve um aperto de oferta
Olhe para os segmentos antes de aceitar o pânico. O software cresceu 5 por cento, com a Red Hat a acelerar para 11 por cento. A consultoria ficou estável, mais 1 por cento a câmbios constantes. A infraestrutura caiu 7 por cento. A infraestrutura distribuída subiu 37 por cento, com uma carteira perto de 500 milhões de dólares, e o programa do mainframe z17 avança a 130 por cento do ciclo anterior comparável. Não é a leitura de uma empresa cujos clientes deixaram de comprar.
O relato do próprio Krishna aponta duas causas. Nas últimas semanas de junho, os clientes decidiram deslocar o investimento do trimestre para compras de servidores, armazenamento e memória, de modo a garantir infraestrutura com oferta limitada antes dos aumentos de preço esperados, e a IBM não antecipou a dimensão dessa mudança de prioridades. Além disso, nas suas palavras, vários negócios grandes não fecharam nos prazos que a empresa esperava, o que gerou a maior parte do desvio.
Sim, mas: as duas causas não tranquilizam da mesma maneira. Um negócio adiado fecha mais tarde. Um orçamento já gasto em memória não regressa. O primeiro é um problema de calendário para a IBM; o segundo é um problema estrutural para quem compra tecnologia.
O que uma compra antecipada faz ao trimestre dos outros
Siga o dinheiro pelo orçamento de um cliente e não pelas contas da IBM. Um diretor financeiro ouve que os preços de memória e armazenamento estão a subir e que a oferta está apertada. O movimento racional é antecipar a compra de hardware e garantir a alocação. Só que o envelope trimestral não cresce para acomodar essa decisão, por isso alguma coisa fica à espera: a renovação de software, o projeto de consultoria, a migração marcada para este trimestre.
É esse o mecanismo que a IBM acabou de descrever do lado de quem o sofre, e é a primeira vez que a escassez de memória aparece com esta nitidez na linha de receitas de um grande fornecedor, em vez de num índice de preços de componentes. O aperto não fica dentro da categoria do hardware: raciona todas as rubricas ao lado.
O número a guardar: infraestrutura a cair 7 por cento enquanto o software crescia 5 por cento, no mesmo trimestre e junto dos mesmos clientes. Os compradores não estão a gastar menos. Estão a gastar naquilo que temem que fique mais caro.
Leia isto como comprador, não como acionista
Se tem marcada para 2027 uma renovação de servidores, armazenamento ou memória, peça orçamento agora e exija proteção de preço por escrito. Os clientes que viraram o trimestre da IBM faziam exatamente isso, e eram os informados. Uma encomenda com preço fixo vale mais do que uma previsão que assume a sobrevivência da tabela de preços de hoje.
Depois, use o outro lado do mesmo negócio. Os fornecedores de software e de consultoria têm contratos na carteira que não fecharam a tempo, e vão levar esse buraco para o trimestre seguinte. Um comprador com orçamento aprovado e ciclo de decisão curto tem mais poder negocial nos próximos dois trimestres do que teve nos últimos dois anos. Vale para quem negoceia em euros ou em libras tal como em dólares, porque a pressão está no trimestre do fornecedor e não na sua moeda.
Por fim, teste o próprio pressuposto. Pegue na rubrica de hardware de 2027 e recalcule-a com um aumento de dois dígitos. Se o plano só funciona aos preços de hoje, não é um plano, e a IBM acabou de pagar para publicar a prova.
A prova chega a 22 de julho
A explicação de Krishna é falsificável, o que é mais do que a maioria dos avisos de resultados oferece. Se os grandes negócios realmente escorregaram em vez de morrerem, fecham no terceiro trimestre e as receitas reaparecem. Se não reaparecerem, a história do calendário era uma história de procura com melhor fato.
As contas completas e as previsões anuais chegam a 22 de julho. Vigie duas coisas: se os negócios adiados são descritos como fechados, e se a empresa volta a apontar para uma infraestrutura em subida assim que passar a vaga de compras antecipadas. São as duas afirmações que o mercado se recusou a aceitar por confiança.
Em síntese: a cotação é problema da IBM. O comportamento orçamental que ela revelou é seu, e vai aparecer nos trimestres dos seus próprios fornecedores muito antes de aparecer num índice de preços que venha a ler.
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