A frase que não entrou na cobertura
Um responsável de compras de equipamento num grupo logístico europeu passou a manhã de 31 de julho a ler o mesmo título em todo o lado: a Samsung espera que a escassez de memória se agrave em 2027 e dure até 2028. O título é verdadeiro e não altera qualquer encomenda. A frase que a altera surgiu mais adiante na mesma apresentação, dita por Jaejune Kim, vice-presidente executivo e responsável pelas vendas e pelo marketing globais de memória.
A Samsung vai colocar cerca de dois terços da sua capacidade de memória fora do mercado aberto. Kim disse que a empresa planeia afetar aproximadamente 60 a 70 por cento da capacidade total a acordos de fornecimento de longo prazo, mantendo margem para outros clientes. Convém ler isto como uma afirmação estrutural e não comercial. Uma escassez é uma condição que passa. Um modelo de alocação é uma decisão sobre quem é servido primeiro, e sobrevive à condição que o originou.
A Samsung também disse quem assina. Os criadores dos modelos de fronteira dirigem-se diretamente à empresa e, nas palavras de Kim, estes clientes partilham a sua previsão de procura a médio e longo prazo e solicitam acordos plurianuais. Quanto à duração, foi igualmente clara: os constrangimentos de fornecimento deverão tornar-se ainda mais severos em 2027 do que em 2026, o que reforça a leitura de que a escassez persiste até 2028, com visibilidade limitada para além de 2029.
O que uma carteira comprometida faz a uma escassez
Um mercado comprometido em 60 a 70 por cento deixa de se comportar como um mercado. O volume contratado não é liquidado ao preço de hoje, mas a um preço acordado meses ou anos antes, em condições que já pressupunham escassez. O que resta no mercado aberto é o remanescente, e esse remanescente absorve todo o desajuste entre procura e capacidade porque é a única parte da oferta que se pode mover.
Isto importa por uma razão pouco vistosa e muito concreta: o preço publicado da DRAM deixa de descrever o mercado e passa a descrever as sobras. Se aferir o orçamento de equipamento do próximo exercício por preços à vista, está a ler um índice do segmento a que está exposto e não um índice do que a indústria paga. Dois compradores podem ver, no mesmo trimestre e para o mesmo componente, preços que já não convergem, e nenhum dos números está errado.
O corolário é mais incómodo. Quando a escassez aliviar, alivia primeiro no remanescente, porque é aí que está a capacidade flexível. Um comprador em ciclo anual suporta assim mais queda agora e recolhe menos subida depois, o que é pior do que a média das duas. Num mercado dividido desta forma a volatilidade não se reparte de modo uniforme; concentra-se na parte que não assinou.
A mesma realocação, contada em NAND
Se a divisão de capacidade soa abstrata, o mix NAND torna-a tangível. A Samsung espera que os SSD para servidor ultrapassem 60 por cento do seu mix de vendas NAND em 2026, mais de 20 pontos percentuais acima do ano anterior. O mix de vendas de um fornecedor não se desloca vinte pontos num ano por causa do preço. Desloca-se porque o cliente mudou.
Isto é uma substituição, não um ciclo. Um ciclo de preços sobe aquilo que todos pagam e depois desce. Uma substituição reatribui a produção a outro comprador e deixa o anterior a disputar o que fica atrás. Os próprios negócios de consumo da Samsung são a prova: o grupo subiu os preços dos telemóveis e tablets Galaxy e a procura caiu, enquanto a divisão de semicondutores registava vendas recorde no mesmo trimestre. O grupo absorve num lado da casa aquilo que ganha no outro.
O número do investimento aponta no mesmo sentido. A Samsung registou investimentos de 16,8 biliões de wons no segundo trimestre, mais 5,5 biliões do que no trimestre anterior, dos quais 15,4 biliões para a Device Solutions. Está a construir-se capacidade. Está a construir-se contra previsões que determinados clientes já entregaram, e equipamento encomendado em 2026 não produz bolachas a tempo de alterar uma proposta de 2027.
A visibilidade futura é um instrumento de compra
A inversão útil é esta: o bem escasso no relato da Samsung não é a memória. É um número credível de procura plurianual. Os laboratórios de inteligência artificial não obtiveram prioridade por pagarem mais por bit, mas por estarem dispostos a declarar do que precisarão em 2028 e a assinar por isso, o que converte o risco de capital de um fornecedor no compromisso de outra parte.
A maioria dos compradores europeus de média dimensão conseguiria produzir esse número e nunca o faz. Um volume de renovação comprometido a três anos não é uma previsão mais difícil do que a que já consta do plano de amortizações. É o mesmo número, dito a outra parte, com uma assinatura por baixo. As empresas tomam o concurso anual por prudência, mas num mercado comprometido o concurso anual é a declaração de que não se vão comprometer, e é cotado em conformidade.
Errar custa dinheiro a sério, e isso deve ser dito em vez de contornado. Um compromisso plurianual com preços em queda é uma perda, e a memória já caiu com força antes. O juízo não é que comprometer-se esteja sempre certo; é que a escolha se faz agora entre duas posições cotadas e não entre um compromisso e uma opção neutra. Ficar no mercado à vista é uma posição e, depois desta apresentação, uma posição mais concentrada do que era.
O que um comprador europeu resolve antes de 2027
Três perguntas pertencem à próxima revisão de equipamento, e nenhuma delas é sobre preço. Primeira: pergunte ao seu fornecedor de servidores ou equipamentos se a memória de uma proposta para 2027 vem da sua carteira contratada ou do mercado aberto. Os fornecedores sabem a resposta e raramente lha pedem. Ela determina se a sua proposta é uma previsão ou uma promessa.
Segunda: peça prazo em vez de desconto. Num mercado tão apertado, um fornecedor consegue dar-lhe certeza para 2028 com mais facilidade do que um preço melhor para 2027, porque a certeza custa-lhe capacidade que já garantiu enquanto o desconto lhe custa margem que não tem. A negociação disponível não é aquela para que as equipas de compras foram treinadas.
Terceira: decida quem na sua organização assume um compromisso de volume a três anos, porque hoje a resposta é habitualmente ninguém. A área financeira detém o orçamento, os sistemas detêm a renovação, e o número prospetivo que o qualificaria para um contrato fica entre os dois. Em Portugal acresce o câmbio, já que a memória é cotada em dólares e um orçamento em euros carrega a variação cambial por cima da escassez. Resolva a responsabilidade antes da conversa sobre preço, não durante.
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