O que von der Leyen anunciou em Estrasburgo

Ursula von der Leyen usou o seu discurso sobre o estado da União de 2026, proferido em Estrasburgo a 16 de setembro, para anunciar que a Comissão Europeia iria propor a EU Kids Act. A transcrição oficial, replicada pela delegação da UE na Turquia e assinalada como "sujeita a confirmação com a intervenção efetiva," começa por expor o problema em números concretos: "Os jovens europeus passam hoje entre quatro a seis horas por dia em frente a ecrãs. As crianças são arrastadas cada vez mais fundo para feeds concebidos para as manter a percorrer o ecrã." A seguir foi mais direta: "Aquilo a que assistimos é uma grande captura dos nossos filhos. Uma captura da sua atenção, da sua concentração, da sua mente. Isto priva as crianças da sua infância." No momento do discurso, o anúncio e o texto legislativo formal continuavam a ser dois passos distintos: von der Leyen disse que a Comissão iria propor o ato "amanhã," ou seja, o texto escrito era esperado para 17 de setembro, um dia depois do próprio discurso.

Também referiu um caso concreto, exposto com clareza e de forma oficial num discurso ao Parlamento Europeu. Oléa, uma menina de 14 anos residente na Bélgica, tirou a própria vida um mês antes do discurso, após sofrer bullying online. Von der Leyen citou a mãe textualmente, em francês: "Je suis persuadée que sans ces réseaux omniprésents, ma fille serait toujours là. C'est trop." A frase traduz-se como "Estou convencida de que, sem estas redes omnipresentes, a minha filha ainda estaria aqui. É demasiado." A resposta de von der Leyen foi breve: "Ela tem razão. C'est trop. Já chega." A presidente da Comissão afirmou ainda ter convocado um Painel Especial de peritos, falado diretamente com jovens e observado o que a Austrália e outros países já tinham feito antes de concluir que era altura de a Europa agir.

Três faixas etárias, um ónus da prova invertido

A EU Kids Act segue aquilo que von der Leyen chamou "uma abordagem gradual e diferenciada," em que cada faixa etária tem o seu próprio nível de proteção em vez de uma única regra para todos os menores. Antes dos 13 anos, a proposta proíbe totalmente o acesso a redes sociais. Dos 13 anos até completar 15, só são permitidas "contas mini," criadas e supervisionadas por um progenitor, com funcionalidades limitadas e uma restrição de tempo. Dos 15 aos 18 anos, os jovens podem ter contas completas, mas as plataformas passam a ter uma obrigação de "design seguro" como condição para oferecer o serviço.

Faixa etáriaRegra
Menos de 13Nenhuma conta de rede social de qualquer tipo
Dos 13 aos 15 (exclusive)Apenas conta mini, supervisionada pelos pais, funcionalidades limitadas e restrição de tempo
Dos 15 aos 18Conta completa permitida, a plataforma tem de cumprir uma obrigação de design seguro

O mecanismo por trás destes níveis é a verdadeira mudança. "Estamos a inverter o ónus da prova," disse von der Leyen. "As plataformas vão ter de provar que são seguras. Porque não se trata de saber se os nossos menores acedem às redes sociais. Trata-se de quando e como permitimos que as redes sociais acedam aos menores." No momento do discurso, a EU Kids Act é uma proposta anunciada, não uma lei aprovada. Ainda tem de percorrer o processo legislativo ordinário da UE com o Parlamento Europeu e o Conselho da UE, um percurso ao qual o discurso não atribuiu data e que costuma demorar.

Em que difere de França, da Eslováquia e da Ofcom

A UE já dispõe de decisões judiciais e leis nacionais sobre segurança infantil: uma decisão de um tribunal francês sobre verificação de idade, uma lei própria da Eslováquia, os poderes sancionatórios da Ofcom no Reino Unido, além de iniciativas estaduais na Florida e na Califórnia. Cada uma destas regras acrescenta-se a um quadro jurídico já existente e pergunta se uma plataforma o violou. A verdadeira novidade da EU Kids Act não é mais um filtro de idade ao lado desses; é onde recai a obrigação da prova. Ao abrigo do RGPD e do Digital Services Act, os reguladores da UE tinham geralmente de demonstrar que uma plataforma tinha violado uma regra antes de poderem agir contra ela.

Aqui o sentido inverte-se: as plataformas têm de mostrar, antecipadamente, que o seu produto é seguro para menores. Esse é o pormenor que nenhum título sobre "mais uma lei europeia de segurança infantil" capta verdadeiramente. Se o texto sobreviver ao percurso com o Parlamento e o Conselho numa forma próxima desta, entrega à Comissão um modelo a que pode recorrer noutros setores. Produtos de consumo bem além das redes sociais, incluindo jogos, ferramentas de ed-tech e chatbots de IA dirigidos a menores, são candidatos plausíveis assim que esse precedente exista.

O que uma plataforma de consumo virada para a UE deve vigiar a seguir

A questão prática para quem gere uma plataforma de consumo com menores da UE entre os seus utilizadores plausíveis não é tanto se este ato específico se aplica hoje, mas sim como acabará por ficar definido "provar segurança" assim que o texto formal, e depois as alterações do Parlamento e do Conselho, estiverem no papel. Essa definição, assim que existir, é aquela a que os reguladores provavelmente recorrerão a seguir no setor seguinte, não só nas redes sociais. Ler o texto final com atenção, não apenas o título vindo de Estrasburgo, é o hábito útil a construir desde já. O Reino Unido fica fora desta proposta da UE por ter deixado o bloco, e ali continua a aplicar-se a Online Safety Act da Ofcom; ainda assim, qualquer empresa britânica com utilizadores na UE deve acompanhar esta lei por causa deles.

Uma segunda iniciativa, mais ampla, situa-se ao lado da Kids Act mas não é a mesma coisa: a Digital Fairness Act, que a Comissão irá propor no outono de 2026, segundo von der Leyen, para tratar do design aditivo para todos os utilizadores, não só menores. "É por isso que precisamos de um quadro mais amplo, a Digital Fairness Act," disse. "A Europa tem o poder de agir. Somos nós que decidimos as nossas regras, não as grandes tecnológicas." Manter as duas iniciativas separadas importa, porque uma é uma regra de acesso e design específica para menores que já avança no processo legislativo, e a outra é um quadro mais amplo, para todas as idades, contra o design aditivo, ainda por redigir.