Trinta e três horas, do início ao fim
A 9 de setembro de 2026, o conselho da Automattic votou para colocar o fundador e CEO Matt Mullenweg em licença remunerada e nomeou o diretor financeiro Mark Davies como CEO interino. Mullenweg afirma que quatro pessoas tomaram essa decisão: Davies e os administradores Ann Dunwoody, Toni Schneider e Sue Decker.
Não durou. Mullenweg diz controlar cerca de 84 por cento dos votos da Automattic, e até 12 de setembro já tinha usado esse controlo para retomar o cargo de CEO, afastar ou aceitar a demissão de todos os administradores envolvidos, e anunciar no Slack interno que estava de volta ao comando. Todo o episódio, desde a votação do conselho até à reversão completa, durou 33 horas.
O pormenor que sobrevive à manchete
Eis a parte que pesa mais do que a manchete: a 10 de setembro, enquanto Mullenweg ainda estava de licença, o CEO interino Mark Davies e o diretor jurídico Andy Missan assinaram entre si acordos de indemnização recíprocos. Cada acordo previa doze meses de salário base em pagamento único, aceleração do vesting de ações, o direito de exercer opções já adquiridas e mais um ano de cobertura de saúde, no total 8,15 milhões de dólares para duas pessoas.
Os acordos definiam ainda a "causa" de despedimento de forma tão restrita que recusar os pagamentos se tornava difícil em termos legais. Quando Mullenweg recuperou o controlo, despediu ambos na mesma, e são agora os próprios advogados da Automattic, junto com o escritório externo recém-contratado Susman Godfrey, que têm de decidir se honram ou contestam condições de saída que dois dirigentes demissionários escreveram um para o outro nas horas finais de uma luta pelo poder que estavam prestes a perder.
Um conselho sem experiência de governação
O novo conselho não tem qualquer experiência de governação empresarial entre os seus quatro membros, uma rutura clara com os administradores que saíram.
| Lugar | Quem | Percurso |
|---|---|---|
| Administrador saído | Toni Schneider | CEO fundador da Automattic, hoje CEO da Bluesky |
| Administradora saída | Sue Decker | Ex-presidente da Yahoo, com larga experiência em conselhos de empresas cotadas |
| Administradora removida | Ann Dunwoody | General reformada do exército dos EUA, primeira mulher a alcançar a patente de quatro estrelas |
| Novo administrador | Hugh Howey | Autor de ficção científica, a saga Silo |
| Nova administradora | Amy Chan | Autora de Breakup Bootcamp |
| Novo administrador | Henry Khachatryan | Cofundador da IRL, uma rede social encerrada depois de se descobrir que os utilizadores eram sobretudo bots |
O que isto significa se o seu negócio assenta em WordPress
Nada muda hoje no WordPress, WooCommerce, Tumblr, Jetpack ou Day One, e é precisamente nesse ponto que vale a pena deter-se. Um conflito de conselho na maioria das empresas arrasta-se por meses entre disputas de voto e processos judiciais; este abriu e fechou-se em dois dias porque um único acionista controla votos suficientes para tornar estruturalmente impossível um controlo real por parte do conselho.
As empresas que constroem sobre os produtos da Automattic, e são muitíssimas as que usam WordPress, confiam na prática no critério de uma única pessoa também para a próxima crise, seja outra saída de um dirigente, um investidor ativista ou um processo como o que ainda decorre contra a WP Engine. Um conflito de governação tão rápido não é sinal de que o sistema funcionou. É sinal de que não havia sistema nenhum para testar.
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